domingo, 25 de maio de 2014

Como se nasce um ídolo?

“O que é faz alguma coisa ser especial não é o lugar, mas o encontro que acontece, assim, qualquer coisa pode se tornar especial”.
Esta foi uma das primeiras falas de Xico Sá em um salão de ideias o qual tive a honra de estar presente.
Retomando a pergunta que dá título a este texto; não tenho a capacidade para esgotar todo o conteúdo que dela possa emergir, mas posso fazer algumas considerações a respeito de como Xico Sá, tornou-se um para mim.
Nossa história de hoje começa no não tão longínquo final de 2013, quando Juliana, professora à qual tenho grande admiração, compartilha no bendito (ou maldito, por vezes) facebook (nesta ocasião, bendito), um link de um texto que levava o instigante título de “Como usar eu te amo até na hora errada”, de um tal Xico Sá.
Já o tinha visto algumas vezes em programas de televisão, mas nunca me deparado com de fato quem era este fulano. Assim, pus-me a ler este, no mínimo, curioso texto.
Foi aí, neste exato momento, ou melhor, parafraseando-o, neste exato encontro, Xico Sá tornou-se especial para mim.
Não sei se pela natureza do conteúdo do texto que escrevera; ou se pela forma despreocupada e irreverente, mas ao mesmo tempo profunda que tratara tal temática; só sei que naquele momento, algo tocou dentro de mim, e não foi alma penada ou assombração, muito menos o dedo do proctologista.
Mais ou menos como naquele momento em que é criança e não entende nada de futebol, mas vê o amor devotado por seu avô à um time, e aquilo passa para você de uma tal forma, meio que como mitose, que logo também se vê apaixonado pelo mesmo time. Logicamente estamos falando do Corinthians.
Na semana seguinte já tinha camisa, e dava uns chutes no portão da minha avó, pobre dela ter que aguentar.
Apesar de meu avô ser outro ídolo para mim, voltemos ao personagem do texto.
Pois, na hora em que li aquele texto tão enredador, adentrei ao seu mundo e conheci vários novos conceitos, como “macho-jurubeba” e “macho-sensível”, “rolinho-primavera”, “carençolândia”, e outros que mudaram a minha vida.
Deste dia em diante passei a acompanhar mais de perto o seu trabalho e admirar a delicadeza e a perspicácia que só um bom malandro (no bom sentido da palavra) sabe levar a vida.
Agora, caros amigos, imaginem ter a oportunidade de ver quem admira pessoalmente, falando como uma pessoa comum, tratando com a maior simplicidade e simpatia tantas pessoas comuns que o admiram.
Pois, graças a Oxalá, Deus, Buda, o Destino, o Universo, ou seja lá o que for, tive a felicidade de conseguir tal proeza. E mais! Tirar fotos e ganhar até uma dedicatória no livro. Agora “chupa negada”, sou amigo do Xico Sá e vocês não!
Brincadeiras a parte, a admiração só aumentou ao presenciar uma ínfima parte do poço de histórias que é este homem ao vê-lo falar sobre mulheres, futebol, broxar, copa do mundo, autoritarismo, existência, Neymar e mais, da forma como apenas ele sabe tratar tudo isso.
E esta foi a história de como surgiu um dos meus ídolos, e olha que ele nem passou por aqueles programas de TV!

domingo, 18 de maio de 2014

Sobre demolidoras e pedreiros.

Mulheres que me desculpem, mas o que vocês fazem com os homens é desumano.
Os estragos que garbosas senhoritas são capazes de causar aos tolos rapazes não têm como serem mensurados.
Destroem tudo! Cabeça, pescoço, orgulho, carteira, coração, fígado, e até coisas indizíveis ao grande público. Muitos destes estragos são causados justamente por terem a ver com as coisas indizíveis ao grande público.
Com a sutileza de um trator, já começam a demolição no momento em que aparecem. Algumas têm uma magia interna que nos hipnotiza, ou como Paulo se pergunta no filme “Todas as mulheres do mundo”: “O que uns olhos têm que outros não têm? O que um sorriso tem que outros não têm?”. No momento que se vê aficionado por uma mulher, meu jovem, já era. A cabeça já foi “pro saco!”.
Em seguida, é um ato feio, admito, mas não há como não fazer, e em certo ponto, elas mesmas são as grandes culpadas por isto. Todo encanto que tem nos faz virar o pescocinho ao vê-la passar. É mais um que já era!
A parte mais difícil, a mais desastrosa, a mais embaraçosa e a mais assoladora a nós homens, é a hora de tentar a aproximação com a jovem (mesmo que “a jovem” seja mais velha, nestes casos é ainda pior). Pois já vi de tudo! De declarações de amor à primeira vista a cantadas das mais baratas que imaginar. Qualquer forma que seja; a verdade é uma só. Nenhum homem na face da Terra se sente totalmente seguro ao tentar se aproximar daquela donzela que te balança o coração!
- Acho que muitas ficam com pena de nós, por isto nos dão uma mísera chance de mostrar que não somos tão patetas como podemos aparentar!-
E agora me perguntam: “E se der certo, é só alegria?” E eu lhes digo: “NÃO!”.
Superada esta fase, chega a um ponto que dói demais, o bolso!
Homem que é homem de verdade acaba sucumbindo sempre às vontades das mulheres, e isto não se nega. Quando já está fisgado pelo anzol da “paixonite aguda”, homem topa tudo, vai aos lugares mais furados que ela propõe; viaja para poderem se ver; chama para encontros, hoje em dia tem gente que chama de “dar um rolezinho”, mas a ideia continua a mesma; e tudo isso, só para reencontrá-la.
E se lembram do “rolezinho”? Se depois rolar outro tipo de rolezinho, acabou de vez! A menina já te dobrou e guardou no bolso. Não está nem mais fisgado no anzol da “paixonite aguda”, já está é num aquário, porque está preso e não consegue nem ver as paredes que te limitam quando estão lá.
Mas mesmo que o pobre rapaz já esteja dizimado neste ponto, há algo o mantem lá, provavelmente a mesma coisa que te deixe com cara de besta ao simples fato de conversar com ela, e talvez apenas recorrendo à psicanálise para saber o que, mas que há, há! Até que sabe-se Deus como, as coisas começam a avacalhar, e se achava que já estava tudo acabado neste ponto, se enganou, sempre as coisas podem piorar.
Neste momento seu coração já está em pedaços e já foi todo pro lixo; já começou a beber pra esquecer e por isso desenvolveu uma cirrose hepática, seu fígado está empedrado, já perdeu um rim, já não faz a barba, não corta o cabelo, não toma banho, já está todo fodido na vida... Aí sim, se chegou nesse ponto, de fato o serviço está completo.
E tudo isso não é apenas uma vez, são várias, e pode ser várias até mesmo pela mesma pessoa. Se vir ao longe aquele avião passando novamente, e você tentar fazer um sinal de SOS, pode ter certeza, que ele vai é jogar bombas para não ter mais nada que possa salvar.

A catástrofe é inefável e inexorável, depois só nos resta buscar no meio dos destroços os poucos caquinhos do que restou do nosso orgulho. Até ser destruído novamente!

terça-feira, 13 de maio de 2014

No embalo que toca na alma.

Cazuza tem uma música que diz: “E ser artista no nosso convívio, pelo inferno e céu de todo dia, pra poesia que a gente nem vive, transformar o tédio em melodia”; não que eu esteja no tédio, até porque tenho muitas coisas para fazer, o que falta é vontade mesmo... Mas sempre há tempo –e necessidade– para uma pausa para a arte.
E o que seria de nós, pobres mortais, sem arte? Quem souber me diga, pois eu não tenho ideia da resposta!
Sem prolongar demais, o empurrãozinho para escrever hoje veio do ônibus. Calma, não literalmente! Vamos explicar com calma.
Creio que a maioria de vocês, leitores, deva saber que estudo em outra cidade (agora todos já sabem!), logo, para ir e voltar da faculdade utilizo um Mercedes ou Volvo, dependendo do dia, de trinta metros de comprimento, prata, com motorista particular... Também conhecido como ônibus. Até então, nada de mais, é a vida normal de muitos estudantes que estudam, ou frequentam aulas, ou nem isso, em cidades vizinhas.
Geralmente, as “pessoas” que valem-se deste meio de transporte vão dormindo, ouvindo música, lendo, ou conversando, o que também é perfeitamente normal. Mas hoje não. Hoje tinha um símio (por isto “pessoas” anteriormente), creio que tentando se comunicar, talvez?! Não sei... Com outro símio semelhante; e eu pensava comigo e perguntava para Deus, pelos céus, porque um “ser humano” urrava desta forma? Sem saber, comecei a hipotetizar.
Será que era um dialeto nativo que eu não conhecia? Ou será que ele estava passando mal e estava tentando pedir ajuda? Ou será ainda que era uma daquelas coisas que os animais utilizam para atrair fêmeas, como quem tem o pelo mais bonito, as plumas mais brilhantes, e no caso deles, quem urrava mais alto? Não sei! Novamente, se alguém souber a resposta, me diga!
O que eu sei, é que nesse desespero que eu me encontrava de não querer mais ouvir cada vez mais gritos desesperados em minha cabeça, lancei mão dos meus fones de ouvido e subi o volume do que tocava no meu celular. Mandei lá pras alturas!
E nessas alturas, minha cabeça também foi pras alturas! Só sei que entrei em uma brisa tão louca, que não vi mais ônibus, estrada, motorista e nem Neandertal urrando!
Acho que era a cafeína, preciso parar com isso!
E agora, como diria Raulzito, só fui curtir o meu rockzinho antigo que não tem perigo de assustar ninguém.
E nessa viagem me encontrei com os Beatles, e o John estava demais; Kurt com o nirvana, sensacional; e o Raul então? Tem nem o que falar. Altas ideias com ele, bicho!
Só sei que quase nem vi chegar ao meu destino, se bobeasse um segundo perdia o ponto. Como as pessoas que vão correndo atrás do ônibus, teria que voltar correndo atrás da minha casa.
E sabe o que é importante nesta falação toda? Não é que o rock é melhor que os outros gêneros musicais; me abstenho de tal afirmação. O que é importante é mostrar a mágica que a arte parece exercer –e exerce– em nossas vidas. Como somente ela consegue te levar a outros lugares e transformar quaisquer situações a ponto de deixá-las inesquecíveis.

O importante é a forma como toca o nosso interior, como se fosse a mão de Deus tocando a nossa alma e despertando sentimentos que nem imaginava que existissem, quanto mais que eu pudesse senti-los. Isto só em um gênero, agora imagine na infinidade de gêneros existentes por aí, e isto que é a beleza da vida. É a arte da vida.

domingo, 4 de maio de 2014

E no retrovisor da vida, para quem você vai dar tchauzinho?

Hoje escreverei sobre algo que todos adoram escrever. Vejo por aí, e são textos em pencas sobre a temática, e admito, muitas vezes pode ser até meio clichê...
Mas Calma, não estamos falando de amor, que por mais clichê e brega que possa ser, é sem dúvidas uma fonte inesgotável para as pessoas beberem, se deleitarem e depois afogar as mágoas na mesa do bar; e depois não há garçom no mundo que aguente escutar centenas de casos de amor (e viva a Reginaldo Rossi, que compartilhou sua sabedoria conosco. Que Oxalá o tenha!).
Acho que por isto quando estamos apaixonados fazemos as maiores cagadas que provavelmente vamos nos submeter durante a vida... É meio que parecido como quando estamos bêbados, só cada vez que que abre a boca, é uma besteira maior que outra. Acho que deveriam fundar uma associação, algo tipo “alcoólatras anônimos do amor”.
Brega como só poderia ser se tratando disto!
E no mais, não há quem resista quando ele te pega e te da uma chave de perna... Vai pra lona em dois tempos. Ainda mais quando se têm umas pernas que são dureza de resistir... Aí já entrega pra Deus! E como diria Leoni “são mãos e braços, beijos e abraços, pele barriga e seus laços” o resto já se sabe... Somos só garotos...
Mas então, não é sobre amor que escreverei, ou melhor, até é, mas de um outro tipo. Vou falar hoje é de amizade.
A vontade – necessidade gritante, leia-se - de escrever este texto surgiu depois de que neste final de semana, me encontrei com Talita, uma grande amiga, e tinha tudo para ser um encontro normal, apesar de que os encontros com ela nunca são normais... Quem a conhece que o diga! E conversamos sobre a vida, falamos um bocado de coisas, e por mais que falemos, sempre tem coisas ainda que queremos conversar, é incrível!
E justamente, pelos encontros com ela nunca serem normais, que apenas uma coisa que foi dita trouxe à tona um mar de lembranças carregadas de sentimentos.
Caros amigos, vamos sair por um instante do piloto automático da vida, e olhar no retrovisor.
Conseguem ver aquela pessoa que está presente na maioria das lembranças que têm? Que já viveram tantas coisas juntos, algumas até indizíveis (segredos dos mais profundos que foram conversados nas madrugadas, sentados no sofá, ou deitados nas calçadas; coisas que foram vividas entre vocês e que sempre será lembrado com entusiasmo, uma pitada de vergonha e um caminhão de saudades...)? Acima de tudo, aquela pessoa que não conseguem olhar para trás e não conseguir se ver sem ela?
E tem mais, não é somente passado, é presente e futuro também, é aquela pessoa que por mais que passem dias sem conversar, a distância não é capaz de nem mesmo arranhar, quem dirá diminuir o tamanho do carinho que se tem por ela (e nisso tenho propriedade em dizer). É ainda quem daqui a alguns anos imagina que frequentará a sua casa e você a dela; que batizará o seu filho, e quem sabe você o dela; quem farão viagens juntos; que passarão natais juntos; que sabe que poderá estar contigo em momentos felizes e tristes, como já acontecido; mas que só não vamos dividir o mesmo quarto em lugares digamos... meio íntimos...
Se conseguiram, pensar em uma pessoa assim sabem o que sinto quando falo sobre Talita. Para ela eu olho no retrovisor e dou tchauzinho!

Maldita seja Alice, que motivou tudo isto.

O inverno está chegando...

Pois bem, cá estou novamente, por ter gostado de me embrenhar cada vez mais no jardim de possibilidades que é escrever.
Tão verdade quanto dois e dois é vinte e dois; que o céu é azul (exceto aos entardeceres onde o laranja domina, pelo menos por alguns minutos, e é a coisa mais linda de se ver); a eu poder afirmar que o curingão é o maior time do mundo; e quanto a qualquer dito popular que trás em si toda a sabedoria da humanidade...
Escrever é um daqueles jardins com pedrinhas coloridas, “castelinhos” como dizemos por aqui; anão de jardim, que não pode faltar; insetos que vem e ficam picando, depois a gente fica com aquela pereba gigantesca; formigas subindo nas suas pernas; minhocas; besouros e abelhas que ficam voando... Não as minhocas, só os dois últimos. Pode ter um banquinho para sentar (sobre isto quero falar) e se bobear tem até uma fonte de um anjinho fazendo xixi – acho demais aquilo! – e também não vamos esquecer-nos das flores, o principal.
Pode a princípio parecer um jardim normal, e concordo com isto, mas, vamos combinar que tal como tudo na vida, quando nos dispomos a um olhar mais atento, podemos ver em suas minúcias suas maiores particularidades.
É lindo, suas flores são de diversas formas, diversos tipos, espécies... Seus dizeres podem ser contos, podem ser crônicas, podem ser fábulas; dissertações, narrações... em primeira ou terceira pessoa, em primeira e terceira pessoa... (prefiro coisas à duas pessoas, sozinho ou em grupo nunca foi muito a minha praia...).
São coloridos também. Podem ter um azul cheio de vida; um verde refrescantes, rejuvenescente; um amarelo dinâmico ou então como um dos meus preferidos, um vermelho da paixão, quente! Dureza mesmo é quando, o vermelho da paixão vira um vermelho fúnebre, aí o bicho pega...
E os cheiros...? Creio que possa ser tão doce, envolvente e excitante quanto a flor que você, meu jovem, deu para aquela jovem donzela quando estavam juntos, seja para conquistá-la, ou para conquistar não à ela, mas seus domínios (seu conquistador barato). Não há como esquecer...
Por falar em cheiros, meus caros, não acharam que tudo fossem flores, não é?! Claro, tem também as folhas, os castelinhos, o anão de jardim, as formigas, minhocas, besouros, abelhas, o banquinho e a fonte do anjinho... Mas não é disso que vou falar... Vocês sabem o que é necessário para se cultivar qualquer planta que seja?
Para os desavisados de plantão, sem todo aquele “frufru” da atualidade de conversar com as plantas, são necessários, terra, água, a semente ou a muda do que se quer plantar e adubo. Pois é, para que haja flores também é necessário ter muita merda! Mas não é qualquer merda, tem que ser uma merda da boa, se não, não resolve nada!
Moral da história: Vamos nos ater a sabedoria dos ditos populares, pois quer verdade maior do que dizer que é de fazendo merda que se aduba a vida? Além de um grande aprendizado, gera ainda boas histórias para contar, ou escrever.
Mas agora, sem mais delongas vamos a o que interessa...
Como diria o grande Ned Stark “- O inverno está chegando...” e já há algum tempo queria escrever sobre isto, mas não tinha encontrado a motivação necessária. Até agora!
O que me motiva a escrever sobre isto foi quando ontem pela manhã – lê-se BEM de manhã – iria à casa da minha mãe tomar um café, oportunidade rara, mas por isto topei enfrentar o frio que fazia cedo e fui de moto enfrentar a longínqua e gélida jornada (acho que a maioria de vocês sabe que sou motoqueiro, mas isto é história para outro dia); até que há alguns quarteirões de casa há outra vivenda com um jardim na frente. Em certo ponto até bastante parecido com o descrito anteriormente, inclusive pelo banquinho, e é aí que toda a ação acontece.
Neste banquinho estavam sentados juntos, um casal de idosos, ambos cobertos por um único cobertor, e isto me chamou a atenção como não é habitual.
Me digam, conseguem imaginar cena mais romântica do que esta? Pois eu não! E comecei a pensar sobre qual era a mágica que tinha aquele cobertor que os deixou unidos por provavelmente muito tempo? Quais os segredos que ele (o cobertor) guardava sobre aquele casal e que muito possível passaram a maioria dos invernos de sua vida juntos (livre de detalhes sórdidos, ok?!)?
E neste movimento de imaginar tantas coisas a respeito daquele amor, como se diz por aí “envelhecido em barris de carvalho, tais como os vinhos que ficam melhores e mais valiosos com o passar dos anos”; senti admiração, senti inveja e senti gratidão.

Fiquei nesta salada de sentimentos por devanear como fora possível um amor durar tanto tempo, e pensar o que é possível fazer para isto; questionava-me se um dia isto também aconteceria comigo, se teria, quem sabe, esta sorte de um dia de inverno poder me sentar ao lado da minha velha, cobertos por um cobertor com tantas histórias e ver o jardim da minha casa; e acima de tudo, fiquei grato por poder admirar tal cena, por esta ter causado todo este movimento dentro de mim e por poder compartilhar estes sentimentos com quem se dispor a ler este texto.

A minha vida de máquina de refrigerante.

Influenciado a escrever por Laura, colega de minha futura profissão (assim espero), que me disse: “- o que talvez não possa ser atingido de maneira racional, talvez possa através da arte.” e a deixa: “- escreva sobre!”.
Claro, longe da pretensão de achar que algumas linhas que eu escreva sejam tomadas como uma obra de arte; tenho para mim que qualquer forma de expressão de ideias ou sentimentos inerentes ao ser humano, deva ser visto como arte, devemos apenas limpar a lente pelo qual os nossos olhos as percebem.
Créditos pelo título, também à minha professora, que talvez de forma tão simples, mas tão genial, conseguira demonstrar o como podemos nos sentir em alguns momentos, em que cada momento “temos que apertar um botão para sair algo diferente”.
Agora, a final, por que “a minha vida de máquina de refrigerante”? Para os bem afortunados que não sabem, talvez uma breve explicação possa ajudar na tentativa de compreensão do quão complicada é a vida de um estudante de psicologia.
Para tentar simplificar, dentro da psicologia existem várias, inúmeras, incontáveis linhas teóricas (formas de olhar o homem, de sua constituição aos seus mais profundos aspectos da personalidade), são cognitivistas, comportamentalistas, humanistas, existencialistas, construtivistas, psicanalistas (estes então multipliquem por dez tais leituras)... enfim, acho que já deu para perceber que de fato são várias.
E neste momento é que a “giripoca pia”, pois dentro da formação de psicólogo vemos boa parte destas teorias, certamente que algumas (quase todas) de maneira muito superficial; e, apesar de algumas vezes confundirmos algumas, misturarmos outras, mas passamos a ter uma noção de o que se trata, e neste meio tempo, criamos maior afeição por algumas e repulsamos outras.
Sei que não é da mesma forma em todos os locais, mas quando chegamos a um certo ponto, em que acreditam que estamos “maduros” ou que já conhecemos o bastante, inevitavelmente no último ano, nos colocam para atender os pacientes em diversas abordagens distintas, e se antes o negócio já era feio, avacalha de vez!
Como disse, passamos a gostar mais de algumas do que de outras, concordar ou discordar completamente de outras e neste momento nos vemos obrigados a fazer, a atuar de determinada maneira, algumas de bom grado e por vontade, outras completamente forçados.
Sabe, meus caros, eu reforço o coro de que devemos nos propor a experimentar, experienciar algumas coisas, porque podemos os surpreender - sempre podemos! – mas, por outro lado, criamos um ranço tão grande sobre algo que quando tentamos fazer, por mais que tentemos fazer corretamente e bem feito, nunca sai como algo que temos tesão em fazer, e isto passa ao paciente.
Passa tanto, como quando nos forçamos a ficar com alguém em uma balada só porque seus amigos te encheram o saco para isto. Passa tanto como quando não queremos comer aquela salada de ovo com chuchu e maionese que sua tia fez, mas se vê obrigado a comer só para a mesma não ficar chateada.
Desta eu já me livrei, não como ovo!
Passa tanto quanto não gostar do seu chefe, mas ter que trata-lo “bem” pois ele paga o seu salário. Passa tanto quanto sei lá, imaginem qualquer coisa que devam fazer, mas não gostam ou não querem fazer, mas por pressões alheias a vocês acabam fazendo.
Pensando bem, acho que desta forma é a vida!
Lembram-se das pessoas que disse anteriormente que eram bem afortunadas por não saberem o que é isto? Acho que me enganei, acho que a grande maioria de nós sabe o que é ser obrigado, pressionado a fazer coisas que não gosta, experimentar, mas não querer.
E claro, eu sei que, muitas vezes, mudamos de papel também, não vamos ser hipócritas, caros amigos. Passamos de vitimizados para vitimizadores em um piscar de olhos, estalar de dedos, bater de asas... enfim; e vocês sabem que é verdade. Quantas e quantas vezes não forçamos alguém também a fazer o que não querem ou não gostam também contra a sua vontade?
Agora, a pergunta de um milhão de dólares, que não quer se calar, que não tem resposta... não, não é quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, ou se mulheres de fato tem um “ponto G”, ou se a paz mundial é possível, não é nenhuma destas, infelizmente. A pergunta é, em quais momentos sabemos se será bom ou não fazer ou forçar alguém a fazer algo que não se quer ou não gosta e quais as consequências ocorrerão disto? Não sei, e acho que não há como saber até estarmos neste lugar. Vamos todos ser grandes máquinas de refrigerante.

(Creio que grande parte deste texto deva ser creditado à Laura, citada no início, com sua visão bastante pertinente e que tanto tem iluminado e fazendo rever velhas ideias preconcebidas de um jovem estudante de psicologia).

Olhando para as mazelas de nós mesmos.

Naquilo que tange a mim, um mínimo dizer a respeito das pessoas, talvez até mesmo absurdamente de forma equivocada, pude me deparar com talvez o cúmulo daquilo que segundo meus valores, logicamente falando, demostra o quão descartável é, aos olhos de muitos, a figura humana.
Pois chega de ser rococó e vamos direto ao ponto. Neste dia, enquanto voltava da faculdade pude me deparar com talvez, a mais lamentável das situações a que uma pessoa pode colocar a outra – a inexistência.
De dentro do ônibus em que me encontrava, pude avistar um mendigo, com toda sua “mendigueza” maltrapilho, sujo, despenteado, descalço, provavelmente malcheiroso também, por que não...? dormindo na porta de uma loja. E a situação a qual digo ser lamentável, não era esta do mendigo que não estava nem aí (a inexistência, ironicamente falando) para as pessoas que por ali passavam, e os desagradava com a sua “mendigueza”. NÃO! Era justamente o oposto disto. Me refiro a como as pessoas passavam por esta pessoa (sim, uma pessoa, para surpresa de muitos) e não notavam se quer a sua presença naquele local.
Talvez com os olhos molhados pelo texto da Lya Luft¹, venha aqui dizer um pouco a cerca da temática. Não entrando no mérito de que muitas vezes animais possuem mais valor do que seres humanos, tema tão discutido atualmente. A questão aqui é semelhante, entretanto, é outra.
Não digo neste, em momento algum para que as pessoas se compadeçam da situação do mendigo. Novamente, NÂO! O que me refiro é ao fato das pessoas passarem umas pelas outras e se quer se notarem; se veem, mas não se enxergam; quando no encontro de duas pessoas (almas, espíritos, essências, psiques... -agora leia da maneira como quiser-) e não sentem nada. Pelo contrário, evitam o encontro. Evitam tanto ao ponto de não mais se enxergarem, infelizmente!
Mais uma vez, não quero dizer que as pessoas devem ser “madres Teresas” ou “Chicos Xaviers” (horríveis estes plurais) umas com as outras, e levarem comida, um cobertor, dinheiro, ou leva-lo pra dentro da sua casa, oferecer o seu banheiro para que ele tome banho, sua cama para ele dormir, sua comida para ele comer... talvez assim ele fique menos mendigo. Mas não necessariamente isto.
As pessoas podem ter nojo dele, podem ter raiva por vê-lo poluir a cidade com a sua presença, raiva por não compartilhar os mesmos hábitos, objetivos, valores que elas, ou então julgá-lo desprezível devido a sua situação (não vamos nem entrar no mérito do mendigo ser mendigo).
Sem valores morais e do politicamente correto, que tantos adoram falar. Temos sim é que ter consciência que possuímos estes sentimentos “hostis” e que -querendo ou não- fazem parte de nós. Talvez mais em umas pessoas, menos em outras, mas todos tem, por um motivo ou outro, todos tem! (talvez por, ao se deparar com o mendigo as pessoas evitam vê-lo para não entrar em contato com tais sentimentos e não serem más de coração, não queimarem no inferno por terem tais pensamentos, ou simplesmente por não se sentirem tão culpadas por os terem).
Tendo em vista estas questões, talvez pudéssemos ter relações mais coerentes com as pessoas, se pudermos não só vê-las, mas enxerga-las, coloca-las no lugar de sujeito e estarmos dispostos a um encontro, mesmo que este nos desperte quaisquer sentimentos que possam surgir, passemos a evitar evitar o outro, e seremos mais verdadeiros com eles e consequentemente com nós mesmos.



¹ http://veja.abril.com.br/250804/ponto_de_vista.html