domingo, 4 de maio de 2014

Olhando para as mazelas de nós mesmos.

Naquilo que tange a mim, um mínimo dizer a respeito das pessoas, talvez até mesmo absurdamente de forma equivocada, pude me deparar com talvez o cúmulo daquilo que segundo meus valores, logicamente falando, demostra o quão descartável é, aos olhos de muitos, a figura humana.
Pois chega de ser rococó e vamos direto ao ponto. Neste dia, enquanto voltava da faculdade pude me deparar com talvez, a mais lamentável das situações a que uma pessoa pode colocar a outra – a inexistência.
De dentro do ônibus em que me encontrava, pude avistar um mendigo, com toda sua “mendigueza” maltrapilho, sujo, despenteado, descalço, provavelmente malcheiroso também, por que não...? dormindo na porta de uma loja. E a situação a qual digo ser lamentável, não era esta do mendigo que não estava nem aí (a inexistência, ironicamente falando) para as pessoas que por ali passavam, e os desagradava com a sua “mendigueza”. NÃO! Era justamente o oposto disto. Me refiro a como as pessoas passavam por esta pessoa (sim, uma pessoa, para surpresa de muitos) e não notavam se quer a sua presença naquele local.
Talvez com os olhos molhados pelo texto da Lya Luft¹, venha aqui dizer um pouco a cerca da temática. Não entrando no mérito de que muitas vezes animais possuem mais valor do que seres humanos, tema tão discutido atualmente. A questão aqui é semelhante, entretanto, é outra.
Não digo neste, em momento algum para que as pessoas se compadeçam da situação do mendigo. Novamente, NÂO! O que me refiro é ao fato das pessoas passarem umas pelas outras e se quer se notarem; se veem, mas não se enxergam; quando no encontro de duas pessoas (almas, espíritos, essências, psiques... -agora leia da maneira como quiser-) e não sentem nada. Pelo contrário, evitam o encontro. Evitam tanto ao ponto de não mais se enxergarem, infelizmente!
Mais uma vez, não quero dizer que as pessoas devem ser “madres Teresas” ou “Chicos Xaviers” (horríveis estes plurais) umas com as outras, e levarem comida, um cobertor, dinheiro, ou leva-lo pra dentro da sua casa, oferecer o seu banheiro para que ele tome banho, sua cama para ele dormir, sua comida para ele comer... talvez assim ele fique menos mendigo. Mas não necessariamente isto.
As pessoas podem ter nojo dele, podem ter raiva por vê-lo poluir a cidade com a sua presença, raiva por não compartilhar os mesmos hábitos, objetivos, valores que elas, ou então julgá-lo desprezível devido a sua situação (não vamos nem entrar no mérito do mendigo ser mendigo).
Sem valores morais e do politicamente correto, que tantos adoram falar. Temos sim é que ter consciência que possuímos estes sentimentos “hostis” e que -querendo ou não- fazem parte de nós. Talvez mais em umas pessoas, menos em outras, mas todos tem, por um motivo ou outro, todos tem! (talvez por, ao se deparar com o mendigo as pessoas evitam vê-lo para não entrar em contato com tais sentimentos e não serem más de coração, não queimarem no inferno por terem tais pensamentos, ou simplesmente por não se sentirem tão culpadas por os terem).
Tendo em vista estas questões, talvez pudéssemos ter relações mais coerentes com as pessoas, se pudermos não só vê-las, mas enxerga-las, coloca-las no lugar de sujeito e estarmos dispostos a um encontro, mesmo que este nos desperte quaisquer sentimentos que possam surgir, passemos a evitar evitar o outro, e seremos mais verdadeiros com eles e consequentemente com nós mesmos.



¹ http://veja.abril.com.br/250804/ponto_de_vista.html

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